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Peça no Sesc Ginástico celebra atrizes veteranas e leva Belém ao palco

05 de September de 2026 0 leituras
Peça no Sesc Ginástico celebra atrizes veteranas e leva Belém ao palco
Foto: Ernest Ghazaryan / Pexels

No teatro russo tradicional, o termo balagan designava o teatro popular de feira que tomou praças a partir do século 18 —um território festivo onde farsas, números circenses, marionetes e improvisações se fundiam em uma deliciosa algazarra, borrando em definitivo as fronteiras entre palco e plateia.

Não por acaso, a palavra sobreviveu no vocabulário como sinônimo de festa e energia desmedida. É nessa vertente do teatro de rua, interativo e imersivo, onde o público recusa a passividade da penumbra para se tornar parte do cortejo, que pulsa a essência de "As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias", em cartaz no Teatro Sesc Ginástico.

A farsa popular e o comentário social dão o tom de abertura: a assembleia de condomínio no fictício Edifício Galharufa, em Copacabana, começa sob as rédeas da síndica Maria Bete, vivida por Bete Mendes. O edifício se converte em um microcosmo verborrágico e bem-humorado das crises nacionais, onde as querelas sobre taxas, barulhos e corredores expõem a convivência inflamada entre a moradora Dona Dilma e vizinhos de ecos bem reconhecíveis da política recente: Jefferson, Michel e Cunha. O jogo cênico, ágil e farsesco, logo desmonta os impasses cotidianos em favor de um pacto coletivo: transformar a discórdia em cena e rumar para Belém para acompanhar a procissão do Círio de Nazaré.

Sob a direção de Eduardo Barata com colaboração de Elaine Moreira, o espetáculo materializa o espírito do balagan muito antes do terceiro sinal: a celebração irrompe nos corredores da sala do teatro, quando o grupo Carimbaby e o elenco serpenteiam pela plateia com tambores e cantos tradicionais, arrancando o espectador da comodidade e arrastando-o para a levada contagiante dos cortejos paraenses. Quando o palco enfim se descortina, as atrizes surgem abrigadas sob o manto de Nossa Senhora de Nazaré, ao som de "Ave Maria", fundindo fé devocional e alegria de feira em uma só respiração.

No centro dessa festa cênica, seis gigantes consagradas do teatro brasileiro —Bete Mendes, Ítala Nandi, Ivone Hoffmann, Maria Pompeu, Mariah da Penha e Veluma Nunes, somadas às aparições afetivas de Joana Fomm e Hildegard Angel— dividem as tábuas com artistas de 20 anos, transformando a maturidade (com idades que chegam aos 90) na verdadeira força motriz do espetáculo. São trajetórias que atravessaram o Teatro Oficina, os anos da ditadura, a história da teledramaturgia e os palcos do país, reafirmando que o lugar da memória é o presente vigoroso da cena viva.

As raízes familiares do encenador em Belém e no Marajó costuram a rica tapeçaria visual e sonora da montagem: a rusticidade lúdica dos barquinhos de miriti, os figurinos de Rute Alves inspirados na cerâmica marajoara e uma trilha viva e vibrante que transita com naturalidade do carimbó e do lundu ao brega de Dona Onete e Joelma, culminando no hino coletivo "Andança".

Essa fusão entre furdunço cênico e afeto atinge seu ápice lírico no quadro "Caixa de Memórias". Ao abrirem um baú cenográfico e compartilharem com o público cartas, fotografias e programas históricos, as veteranas homenageiam mestres que lapidaram sua arte — como Augusto Boal, Zé Celso Martinez Corrêa, Eva Wilma, Amir Haddad e Elke Maravilha.

O gesto reitera a marca de Eduardo Barata: uma dramaturgia de escuta e reverência àqueles que pavimentaram a cultura nacional, a exemplo de seus tributos a nomes como Amir Haddad e Renato Borghi. Mais do que arquivar o passado, "As Marias de Belém do Pará" devolve a essas trajetórias o calor do tablado, o olho no olho e o turbilhão participativo da plateia, provando que, tal como no ancestral balagan, o teatro só atinge sua plenitude quando se faz festa, comunhão e vida compartilhada.

Três perguntas para…

A dramaturgia parte da fricção entre as trajetórias reais das atrizes e as suas próprias raízes no Marajó e em Belém. De que maneira a sua história familiar orientou a escolha de trazer o Norte e o Círio de Nazaré como eixos centrais da peça?

O Pará está em mim muito antes desta peça: meu avô paterno era de Belém e o materno, ribeirinho do Marajó. Trazer o Norte para o centro da cena foi refazer esse caminho familiar e reconhecer minha ancestralidade. Já o Círio de Nazaré surgiu pela força de reunir fé, pertencimento, memória e multidão. O espetáculo não tenta reproduzir o rito nem ser religioso, mas entende que teatro e fé nunca se distanciam.

As Marias também fazem a sua caminhada carregando promessas, perdas e esperanças. Do cruzamento entre as raízes paraenses e a vida real das atrizes, a montagem virou uma procissão de música, humor e afeto que reafirma o teatro como memória e transformação.

A reunião no Edifício Galharufa funciona como uma alegoria bem-humorada das fraturas políticas do país. Como você calibrou a sátira de costumes para que o riso servisse de ponte para a celebração e a viagem a Belém?

O Edifício Galharufa é um microcosmo do Brasil. Tudo parte de uma reunião de condomínio — território em que uma infiltração revela fraturas de classe, geração e política. Ao lado de Elaine Moreira, parceira no texto e na direção, evitamos discursos panfletários: as divergências nascem do cotidiano das próprias personagens.

O humor aqui não apaga conflitos, mas viabiliza a convivência. Elas discordam e se provocam, mas permanecem juntas. A viagem a Belém acontece justamente quando transformam atrito em movimento, provando que a arte ainda cria espaços comuns entre os diferentes. O riso abre essa brecha e converte a disputa em música, encantaria e travessia.

O mercado cultural brasileiro frequentemente empurra atrizes veteranas para a margem ou para o silêncio. Como foi a construção desse espaço cênico para afirmar esses corpos idosos como territórios de vigor, dança e autonomia artística?

A cultura comete uma violência silenciosa ao tratar o talento de artistas mais velhos como algo com prazo de validade. A peça vai na contramão: recusa a homenagem nostálgica para colocá-las no presente, dançando, cantando e criando no centro do palco.

Não construímos o espetáculo para elas, mas com elas, somando a bagagem de cada uma ao vigor de jovens artistas em cena. Seus corpos não escondem o tempo —carregam o tempo com potência dramática. Reconhecer essas veteranas é garantir palco, escuta e liberdade de criação. Elas não são relíquias do nosso teatro, são o teatro brasileiro em plena atividade.

Sesc Ginástico - Avenida Graça Aranha, 187, Centro, Rio de Janeiro. Quinta e sexta, 19h. Sábado e domingo, 17h. Até 13/9. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 15 (comerciários e conveniados do Sesc) em ingresso.com e na bilheteria do teatro

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Rodapé editorial

Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de redir.folha.com.br.

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