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Extremismo é legitimado nas universidades do país e vira virtude

05 de September de 2026 0 leituras
Extremismo é legitimado nas universidades do país e vira virtude
Foto: michelle guimarães / Pexels

É de se lamentar a radicalização da política no Brasil atual. No fim do mês passado, um grupo boçal de direita simulou o enforcamento e o espancamento de um boneco com referências ao PT e à esquerda no camping da Festa do Peão de Barretos. Em seguida, esquerdas autoritárias dobraram a aposta.

Durante a noite de terça-feira (25), o estudante de história Diego Araújo foi retirado da sala de aula e agredido por um grupo de alunos no prédio do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Segundo os linchadores, o rapaz seria nazista. Até agora, nenhum dos inúmeros vídeos legitima a versão do diretório acadêmico da UFRJ, que argumenta que o rapaz teria sido racista e agredido seus algozes.

Ainda assim, cabe a pergunta à turba. Mesmo se tratasse de um nazista, valeria o justiçamento? Sem julgamento, no calor da hora, ao sabor das multidões? Para acabar com o suposto nazista de plantão, vale agir como diz a súmula do nazismo, linchando alguém? O que resta de civilizatório em nós quando os métodos são idênticos?

Este caso é paradigmático, pois revela que a radicalidade não tem certificado de origem. Pode vir de qualquer lado do espectro político. Desde que legitimada pelo discurso "correto".

Assim como os envolvidos, sou historiador. Fiz graduação, mestrado e doutorado em uma universidade vizinha, a UFF, Universidade Federal Fluminense. Cheguei a cursar filosofia na UFRJ, no prédio do IFCS. Não é estranho que um caso assim tenha surgido exatamente na faculdade de história.

Há uma certa pretensão em muitos alunos de história de que eles têm a chave correta para interpretação do mundo.

É uma pretensão inversamente proporcional ao salário do historiador médio. Como ninguém se torna rico sendo historiador, sobra a vontade de mudar o mundo voluntariamente, especialmente entre aqueles ligados ao movimento estudantil.

Desde o meu tempo de graduação, sempre os vi como figuras que flertam com a soberba juvenil, que transforma qualquer adversário em inimigo. Nunca foi algo que me parecesse intelectualmente estimulante.

Naquela época, as pautas do movimento estudantil não eram identitárias. As disputas já eram hegemonizadas pelas esquerdas, mas giravam em torno do pragmatismo petista em suas várias interpretações. E, tal como numa bolha, discutia-se a "crise do capitalismo" como se a revolução fosse chegar no próximo mês.

Essas discussões eram hegemonizadas por diferentes matizes do marxismo. Lembro-me de trotskistas, leninistas, gramscianos e stalinistas. Até maoístas conheci, quando nem a China era mais fiel a seu líder. Alguns anarquistas corriam por fora.

Essas ideologias dominavam a vida política universitária dos centros acadêmicos, em largo descompasso com a sociedade, e quase sempre a reboque dos desmandos de partidos políticos institucionais. Não lembro de discussões sobre a falta de papel higiênico nos banheiros, nem de dirigentes estudantis reclamarem de professores ausentes.

O que havia era uma vaga noção de política nacional e internacional. Para um militante estudantil, contava mais ponto opinar sobre a ocupação da Palestina por Israel ou denunciar os malefícios do neoliberalismo do que interagir com dilemas reais e concretos da vida universitária.

Hoje os movimentos estudantis mudaram. Ampliou-se o espectro social da maioria dos estudantes de todos os cursos. Mas o curso de história não era tão diferente na minha época. Como já era considerado um curso de classe média baixa, nunca foi estranho ver alunos de origens humildes, muitos deles negros. As cotas sociais fazem mais sentido em cursos elitistas, como medicina, do que em cursos desprestigiados na sociedade, como história.

Grande parte dos estudantes militantes de hoje se identificam com as pautas identitárias. Na minha época não era assim. Tais pautas existiam, e achávamos que eram importantes, mas sempre havia alguém da militância estudantil pronto a considerá-las como secundárias, subordinadas ao projeto maior da revolução, que nunca veio.

Hoje os identitários são hegemônicos na universidade. Mas os métodos continuam muito parecidos com os do movimento estudantil da minha época: truculência, voluntarismo e soberba.

Assim como os marxistas de outrora, os identitários têm a certeza dos destinos do planeta. Não há dúvidas, apenas vítimas e algozes, um conto de fadas social. Não estão nem aí para ambiguidades e paroxismos. A resposta para os dilemas do mundo está sempre na ponta da língua.

O antropólogo Antonio Risério vem, há anos, denunciando o fascismo de esquerda perpetrado por certas camadas do pensamento identitário universitário. Direitas boçais e esquerdas extremas bailam à beira de um abismo, numa dança que se retroalimenta e asfixia o Brasil.

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Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de redir.folha.com.br.

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